domingo, 11 de maio de 2008

02-03-2008 – PR4 Tondela

Rota dos Caleiros
8km / circular

Olá, Amiguinhos

Conforme prometido, cá estou mais uma vez a passear pela Serra do Caramulo, onde se respira um ar tão puro e suave como em nenhum outro lugar.
Foi nesta Serra que a minha personagem “Caramulinha” nasceu.
Espero que a respeitem e preservem, não ateando fogo algum, não deixando lixo e nem retirem do se habitat natural as suas ainda muito diversificadas Fauna e Flora.
Um dia, li numa crónica sobre Pedestrianismo, uma introdução com esta bela e acertada frase:
«A paisagem Portuguesa é o mote perfeito para um passeio a pé, terapia completa e totalmente gratuita.»
Ora nem mais. Por prazer e devoção à modalidade, vim percorrer este maravilhoso trilho mesmo no coração do Caramulo, com início e fim no Caramulinho, onde se atinge o ponto mais alto desta Serra: 1070 metros.
Começa-se por caminhar ao longo de um estradão entre enormes penedos graníticos e as Chãs de pastagem, onde a tradição da pastorícia ainda se mantém, embora em muito menor escala.

Pelos caminhos são visíveis os sulcos marcados na rocha pelas rodas dos carros de bois, que ao longo de séculos trilharam por estas terras de clima rigoroso.

Num ápice e misteriosamente, surge-nos a povoação de Jueus, Aldeia bela e de gente conversadora e afável, com palavras simpáticas para quem os visitam.
Conta um morador,que outrora os acessos eram inóspitos e a sobrevivência nestas regiões agrestes eram muito dura. Por isso, aqui se fixaram comunidades de Judeus, que fugiam à perseguição que lhes foi movida e que viriam a expulsá-los do nosso País assim que foram localizados.
Novamente repovoada, foi uma Aldeia sempre com poucos habitantes, que faziam da agricultura e pastorícia os seus métodos de vida e fonte de rendimentos.
Aqui, podemos admirar o “penedo dos Judeus”, uma marca que ficou.

Do miradouro da Capela de Menino Jesus, avista-se uma paisagem deslumbrante onde sobressai a velha Calçada Romana e as ruínas das casas duma povoação que em tempos distantes se chamava “o Carvalhal”.

Dirigimo-nos depois para Pedrógão onde, entre as várias formações rochosas com formas imaginárias ao gosto de cada um, destaca-se o “Penedo do Equilíbrio”, enorme e arredondado, que está encimado noutro e que o tempo teima em não derrubar.

À saída desta povoação e ao encontro do sopé da montanha, deparamo-nos com o que resta de um aqueduto ou caleiro esculpido em dura rocha, por sinal aquele vestígio que mais se evidencia nesta rota que lhe dá o nome “Rota dos Caleiros”, que desta forma em “levada” serviam para trazer dos pontos mais altos da Serra a água para uso nas lides domesticas, irrigação das “chãs” ou campos de cultura de trigo e cevadas, assim como matar a sede aos enormes rebanhos que dantes pastavam pelas férteis encostas.
Um transeunte com quem conversamos nos informou estar para breve a Autarquia levar a cabo um projecto de recuperação e requalificação o mais original possível destas relíquias, na realidade um património onde se vê que há muito deixou de ter quem o preserve.
Oxalá assim seja, dissemos. E despedimo-nos na esperança quando um dia lá voltarmos, tudo esteja bem diferente, para melhor da região e mais atractivo turisticamente.

De regresso ao Caramulinho, avistam-se belas Aldeias encaixadas nos Vales da Serra, sobressaindo aquelas enormes “torres” do parque eólico, produzindo a energia alternativa do futuro, ao que parece já se impuseram na paisagem e estão para ficar.
No final da caminhada, ainda subi aqueles duzentos e tal degraus para chegar ao pico sinalizado por um marco geodésico e daí avistei e fotografei paisagens verdadeiramente espectaculares para recordar e jamais esquecer.

Depois, foi aquele franguinho saboroso e bem regado que degustamos no centro da Vila e que veio mesmo a calhar em beleza para recuperarmos algumas energias perdidas, saindo depois a passar a tarde num recanto de rara beleza, a Praia Fluvial do Porto Várzea, em Campia, no Concelho de Vouzela, relaxando naquele espaço paradisíaco com um saboroso café no típico bar próximo ao bucólico Rio Alfusqueiro.

Sobre este local, numa próxima crónica vos darei pormenores mais detalhados.

Que dia tão belo eu passei!

Beijinhos da “Caramulinha”

A Quinta da Conceição ( 3 )

Leça da Palmeira – Matosinhos

« Deixe que lhe repita uma bonita cópia de uma canção de Francisco Sá de Meneses:

Ó Rio Lessa
Como corres manso!
Se eu tiver descanso
Em ti se começa.

A fábrica do Convento era pobre. Os arquinhos do claustro eram de tijolo, sem varandas por cima. Tinha capacidade para vinte e quatro moradores, vinte e quatro cubículos.
Da Conceição diz um cronista: « … tudo aqui é santo e devoto, porque até as paredes, onde parecem mais toscas, estão gotejando alentos de santidade…»

Mais miúda relação do Convento não encontrei ainda. Da Igreja direi o que me lembrar das crónicas. Esteve aqui uma imagem de pedra de oito palmos em alto, escultura do célebre Diogo Pires, santeiro, a quem D. Afonso IV mandou fazer em Coimbra por sete mil reis e mais três mil reis de pintura. Esta preciosa antigualha aqui à vinte anos, esteve escondida na alcova de um lavrador de Matosinhos. Não sei onde pára.
Dessa imagem, conta-se um caso dum carpinteiro de espírito forte do sec. XV:
Quando a Senhora da Conceição chegou à barra de Matosinhos, repicaram os sinos.
O carpinteiro perguntou que era aquilo. Responderam-lhe que era Santa Maria que chegava de barco e vinha para o Mosteiro.
O barbante, que estava carpinteirando, blasfemou desta forma, cuidando que a santa era de pau: « tão gorda galinha tivera eu, como assara com ela!»
Palavras não eram ditas e cai-lhe a enchó sobre um pé, do qual manquejou toda a vida.
Por este Convento passou D. Afonso V que veio ver a Quinta e concedeu a licença da construção. A este Convento veio el-rei D. João II confessar-se ao Frade Frei João da Póvoa. Esse Frei João da Póvoa, tal como Frei João da Comenda, eram os únicos relojoeiros que naquele tempo havia por todo Portugal.

Nesta casa professou e saiu para Roma o ilustre Irlandês Wadingo, autor dos “Anaes da Ordem dos Frades Menores”, em 22 volumes.
Aqui estiveram os ossos de João Rodrigues de Sá, chamado o das “Galés”.
Aqui se perderam as cinzas dos dois “Sá de Meneses”, um Conde de Matosinhos e outro de Penaguião. Também de duas formosíssimas senhoras do seu tempo: D. Maria de Vilhena e D. Luísa de Faro, Condessa de Matosinhos.
Os ossos de Frei João da Póvoa estão incinerados de volta com a terra que pisamos.
Por aqui andam adubando batatais os ossos doutro que se chamou Frei João Pobre, o “Hortelão Santo da Conceição” e de Frei Bezardo, por cognome a “ ovelhinha de Deus”.

Sem mais contar, eu daí a nada, derivando na serena água do rio triste, vinha repetindo a canção do autor da Malaca conquistada: « ó Rio Lessa, como corres manso…»

No regresso, o meu cachique levava desfraldada uma bandeirola com um nome de um filho meu. Deu-me nos olhos, que se levantavam para o azul do céu de Agosto.
Vi o nome. Lembrei-me dos Anjos e esqueci os Frades. »

Hoje, Senhores Autarcas, a vossa “Caramulinha” suplica:

Não deixem este espaço ao abandono mas, também não nos retirem este prazer tão grande que é chegarmos ao fim de semana e na companhia daqueles que amamos, encontrarmos as portas abertas deste “paraíso encantado” e usufruirmos daquilo que, como cidadãos e contribuintes temos direito!

A “Caramulinha” agradece!

Compilado pela “Caramulinha”

A Quinta da Conceição ( 2 )

Leça da Palmeira – Matosinhos

« Estamos ainda em frente da porta vermelhaça que foi substituída à outra. Vem abrir uma mulher vestida de serguilha e lama.
- Muito bons dias.
- Viva vossemecê, quer comprar pêssegos ou maçãs? – pergunta a pomareira.
- Não senhora. Queríamos pagar-lhe o favor de nos deixar ver o Convento.

- Qual Convento?! Volve ela espantada.
- O Convento da Conceição.
- Cá não há nada disso há muito. Aqui dentro o que há é a casa do Sr. Fulano. Onde vão os Frades!... Nem eu já me lembro deles…
Diz isto a sorrir da nossa ignorância a mulher.
- Bem sabemos que não há Frades lá dentro; mas a casa que eles deixaram…
- Isso foi-se. O Sr. Fulano comprou isto ao Sr. Sicrano e já não achou cá Convento nem onde ele estivesse.
- Nem onde ele estivesse?... ora essa!
- Isto é um modo de falar. Lá que ele esteve, esteve;
Mas isso foi lá no tempo da minha mãe que ainda cá veio à desobriga c’um fradinho muito santo e bom homem. Olhe, vossemecê pode entrar, se quiser, que eu mostro-lhe onde foi o Convento.

Pois sim, vamos, se dá licença.
Cá estamos. Se esta mulher nos deixasse. Aqui nos há-de vir aos olhos uma lágrima e é preciso que ela não veja… felizmente batem à porta… é um rancho de senhoras do Porto que pedem pêssegos e maçãs. São poetisas que vêm cismar no paraíso terreal e comer do fruto que sua avó comeu à tripa-forra para o estarmos agora pagando. Lá vai a mulher. Deixe-a ir. Ei-la que volta o rosto contra nós e diz:
- O que há que ver aí está. O Convento era ali, e a Igreja acolá. Rimou e despediu-se.
Onde ela disse “ali” era um casarão com algumas dúzias de janelas arquitectadas à feição da Rua Augusta, assim vistosas e pitorescas. Onde ela disse “acolá” era um palheiro, com quatro janelas, duas frestas e duas portas.
Bem, sente-se Vª Ex.ª neste beiral da eira e conversemos.

Este lugar era uma Quinta, chamada da Granja, que pertencia ao Balio de Lessa.
Dois benfeitores compraram isto e deram-na aos Frades de S. Clemente das Penhas.
Era já cerrado e de séculos, o arvoredo da grande mata que devia ser tudo isto que Vª Ex.ª vê enverdecido de milheirais. Os cronistas gabam as suas aprazíveis abobadas de ramagens e as Capelinhas entranhadas por devesas e bosques.
Das ruas, será ainda porventura uma que lá passa em baixo, com sua enorme mesa de pedra onde as senhoras portuenses estão comendo as maçãs.

Capelinhas há uma ou duas, desabrigadas de árvores, desgraciosas e que não dizem coisa de nada nem a devotos nem a poetas. Os passarinhos também fugiram, uns passarinhos domésticos, os quais diria Frei Manuel da Esperança, lhes iam comer à mão. Era a santidade da casa e mistério.
Tanto era mistério, veja lá, que se ouvia o rouxinol, calhandra ou pintassilgo. Algumas poucas avezinhas que hoje por aqui passam, fogem da espingardaria dos caçadores e escondem-se lá em baixo, nos amieirais do Lessa, porque é aquele ainda o rio do tempo dos Frades. Serpenteia sereno como ia, espelha ainda o céu no mesmo cristal.

O Padre Esperança dizia do seu Lessa: «… toda esta formosura nos realça a vizinhança do Lessa, o qual cortando vagaroso por muitos prados alegres, dá suspeitas de os ir deixando por violência. Chega a esta casa, parece que se esquece de continuar seu curso, fazendo dificultoso nosso juízo em querer determinar para que parte caminha…»

Continua…

Compilado pela “Caramulinha”

A Quinta da Conceição ( 1 )

Leça da Palmeira – Matosinhos

No passado mês de Abril li uma notícia sobre um vasto programa para obras de requalificação no Concelho de Matosinhos que a Autarquia irá levar a cabo e saltou-me logo à vista o texto no que dizia respeito à Quinta da Conceição, onde se prevê gastar 356 mil euros na requalificação do Parque, tendo já lançado o Concurso Público para este fim, e um outro para entregar a gestão da Quinta a um privado, que ficará com os direitos de exploração comercial.
A Autarquia receberá 1,39 milhões de euros pela sua concessão.
Como é obvio, as portas irão ser fechadas e vedado o acesso gratuito ao Público.
Também já soube que existe uma petição on-line direccionada à Câmara de Matosinhos, intitulada: “Quinta da Conceição, um espaço Público de todos!”
Ao contrário da opinião de muita gente, numa votação pela Internet que decorre desde Fevereiro, para eleger as “ 7 maravilhas do Concelho de Matosinhos” a Quinta da Conceição foi esquecida, mas para mim será sempre a que encabeça a lista.

É o espaço mais natural, mais romântico e bucólico de Leça da Palmeira, Matosinhos.
Como diria o “outro”, eu já fui muito feliz naquele pequeno paraíso. Quando me lembra aquele sabor que tinham os beijos, os abraços, as mãos dadas, pelos caminhos daquela frondosa mata e belos jardins…pela piscina, onde as crianças brincam e se relaxa aquele fim de semana ou dia de folga.
Então, de tanta vez ter percorrido aquele “divino” espaço, onde outrora existiu um Convento de Frades, quis saber mais da sua história remota que o tempo apagou e lancei-me numa pesquisa literária onde pudesse elucidar-me melhor.
A narração mais espectacular que encontrei, vem testemunhado num livro de Camilo Castelo Branco, que sabiamente descreve aquele dia que, tal como eu, quis vir conhecer pessoalmente este local.
Ainda na província transmontana ele ouvira dizer «…ficar próximo à foz do Lethes… », esse rio da saudade que os poetas eternizaram para sempre!
À mais de um século, Camilo veio acompanhado de cicerone e narra assim aquele espaço inopinado e deitado ao abandono da sociedade, que encontrou e o deixou «amargurado e triste, naquela solidão…»

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco


O Mosteiro de Lessa

« À Ponte de Lessa, acha Vª Ex.ª uns barquinhos que o levam rio acima até à cerca do Convento. Aproe ali onde os salgueiros saem a recebê-lo sob um pavilhão de ramas.

Suba por essa vereda pedregosa e ladeada de sobreiros e carvalhos sem folhas, sem frondes, sem casca, mortos, ou vivos o necessário para que saiba que o sucessor dos Frades no senhorio da mata é um sujeito que esgalha árvores para lenha, e as esfola para vender a casca aos tintureiros e artífices de rolhas. Quanto à bolota, a que não pode vender come-a, ou vende a que não pode comer.
Vá subindo rente e ao longo desta parede que separa o bravio das hortas e pomares.
Aqui tem uma porta. Entre, que o Convento da Conceição deve estar aqui dentro.
- Mas esta portaria de padieira lisa com portadas vermelhas e uma aldraba de cabeça de javali é porta indicativa de Convento Franciscano?
- Não, senhor. A porta que esteve aqui, está hoje na Quinta do Senhor Conselheiro Anthero Albano, em S. Paio alem Douro, defronte de Sovereiras. Comprou-a por quatro moedas. Era de um belo rendilhado das portadas Manuelinas daquele tempo. Aqueles relevos, bem que modestos, e arabescos desprimorosos, tinham que ver.

Por baixo daquele arco passou…
Não antecipemos…»

Continua…

Compilado pela “Caramulinha”

sábado, 10 de maio de 2008

16-02-2008 PR5 Vouzela

Caminho de S. Miguel do Mato

O Município de Vouzela, nomeadamente por intermédio do seu Gabinete de Turismo, tem sido um dos pioneiros da Região Centro, na divulgação desta área geográfica lançada de portas abertas para uma implementação turística destinada a todos que gostam e amam a Natureza que o nosso belo País oferece.
Para tal, a um óptimo parque de campismo – Senhora do Castelo - juntou uma rede de percursos pedestres que foi criando nas suas freguesias, bem estruturados e sinalizados.
Hoje, resolvi percorrer o PR5, que nunca me tinha importado de o pesquisar em detalhes, deixando para este dia “aquele mistério” e algum pressentimento de nostalgia que seria caminhar pela antiga Linha do Vouga, no ramal de Viseu, e conhecer a velha Igreja e a Capelinha do Senhor da Agonia de cujas peregrinações e romarias de outros tempos eu já tinha ouvido falar.

O percurso inicia-se junto à antiga estação de Moçamedes, edifício bem preservado, onde actualmente ali funciona a Junta de Freguesia.
Os pés já quentes com algumas centenas de metros percorridos e aparece-nos aquele túnel por onde outrora “furava” a locomotiva a vapor. Óh! Velhos tempos, dirás tu.

Uma ave foge do meu olhar e à saída, na penumbra, abre-se uma janela neste lugar de apeadeiro, que me vai deixar a alma cheia de melancolia, quando avisto, lá ao fundo, aqueles muros ao alto com uma torre, onde outrora foi um local de acolhimento Religioso Cristão, a Igreja Matriz de S. Miguel do Mato.

Caminhei por aquele cemitério e lembrei-me daquelas palavras que aprendi num retiro e que aqui vos escrevo:

Abaixo do chão dez palmos
Já não tem lugar as leis,
As leis que os homens fizeram
Com seus códigos cruéis!


Subi aquela escada granítica e do alto da torre onde outrora os sinos repicavam a chamar os fiéis para a Santa Missa, senti um vazio tão grande no coração, por ver um espaço envolvente tão belo e sem vida humana, embora esta Paz serena me confortasse a alma, deixando-me a meditar como tudo pode ter acontecido.
ruínas da Igreja Velha

Nos anos 40, durante a 2ª Guerra Mundial, existiram nesta região (ainda lá estão os vestígios) duas minas importantes – Barrosa do Cume e Bejanca – de onde se extraíam o estanho e o volfrâmio para a pólvora dos canhões de Hitler.
Empregavam muita gente que nesse tempo abandonou a agricultura e se dedicou à arte de mineiro, bem mais rentável.
Foram anos prósperos por esta que era uma zona rural pobre.
A morte de inocentes a milhares de kms de distância, por incrível que pareça, era o sustento de inúmeras famílias Portuguesas, que com a extracção e venda desse minério aos alemães, melhoravam as suas condições de vida e assim puderam criar os seus filhos e envia-los para as escolas, que antes seria algo impensável nestes meios pobres.
Terminada a guerra, a exploração do volfrâmio e do estanho praticamente se extinguiram, deixando muita gente desempregada e quem não soube poupar esses ganhos (em alguns casos tornaram-se famílias ricas e abalaram para o litoral) as gentes regressaram ao trabalho do campo e caíram novamente na sua natural pobreza.
o Vale triste
Com o encerramento da Linha do Vouga, então foi mesmo o fim de qualquer esperança de vida que alguns ainda pudessem sonhar e a emigração para os países ricos da Europa e Américas foi a resposta que esta gente encontrou.
Aqui, a desertificação humana está patente aos olhos de todos.
Deixamos o caminho onde foi a antiga via-férrea e prosseguimos ao redor daquele vale deveras triste.


Após uma descida, surge-nos entre as fragas a Capela do Senhor da Agonia, na vertente do monte junto dum rochedo, exposta ao tempo e ao mundo.
Pensando em Deus, lembrei-me então, daquele verso:

Tu és talvez aquela dor sombria
Que o teu doce coração feriste,
Quando morreu teu Filho, quando viste
Mudar-se em noite escura o próprio dia!


Depois de alguns momentos no bucólico miradouro, atravesso a povoação e dou comigo no fim deste caminho.


Não se esqueçam desta terra e destas gentes!


A “Caramulinha"

10-02-2008 PR1 TONDELA

Rota dos Laranjais – 7,5 km

Olá!
Sabiam que a Câmara Municipal de Tondela colocou à nossa disposição 4 Percursos Pedestres, devidamente sinalizados, para melhor conhecermos a beleza das suas terras e a imponente Serra do Caramulo?
Pois é. Lá fomos nós percorrer o PR1, denominado “Rota dos Laranjais”, uma rota circular com início e fim no Parque Coração de Maria, na Freguesia de Castelões.
Tal como o nome indica, ao longo do percurso respira-se um aroma refrescante e adorável a citrinos e flores aromáticas e silvestres da Serra.

Laranjais por tudo quanto é sítio, regatos de água, fontes, caminhos rurais e de passagem por núcleos de floresta diversificada com carvalhos, pinheiros, grande variedade de giestais.

Poço Silveira - queda do rio de Castelões

Próximo aos cursos de água, predominam os habituais salgueiros, amieiros, bétulas e diversas espécies de fetos, sobressaindo, no entanto, a mimosa, esse arbusto entroncado a que chamam praga, mas que liberta, por estar agora divinalmente florido de amarelo, um perfume embriagador.


Caminho dos moinhos coberto de mimosas em flor

Como foi adorável estar junto ao rio a respirar este ar imaculado e único! Ouvir as aves e o coachar das rãs!


Ruínas do solar da Quinta da Cruz

Depois, surge-nos os “Caminhos do Povo e das Ladainhas”, que nos leva por Quintal, localidade que trás à memória esse vulto da Literatura Portuguesa, Antero de Quental, que um dia nos deixou este poema:

Eu amo a vasta sombra das Montanhas
Que estendem sobre os largos Continentes
Os seus braços de rocha negra, ingentes,
Bem como braços colossais de aranhas.

Dali o nosso olhar vê tão estranhas
Coisas, por esse Céu! E tão ardentes
Visões amostram o Mar de ondas trementes
E as estrelas, dali, vê-as tamanhas!

Amo a grandeza tenebrosa e vasta:
A grande ideia como um grande fruto
De uma árvore colossal que isto domina.

Mas tu, criança, sê boa… e basta!
Sabe amar e sorrir… mulher é muito…
Mas a ti só te quero pequenina…

Com este espírito e tanta poesia eu percorri aquele caminho perfumado das mimosas ao longo do Rio de Castelões e das velhas ruínas dos moinhos, relaxando naquela berma a comer uma laranja que acabei de colher.

Típico fontanário


Purifiquei os pulmões e o espírito e pelo regadio regressei ao Santuário do Coração de Maria, bem lá no alto, onde tinha iniciado esta bela caminhada.

Adeus, Caramulo. Eu hei-de cá voltar!


Beijos da “Caramulinha”

sábado, 3 de maio de 2008

26-01-2008 PR2 SEVER DO VOUGA

Trilho da Cabreia
(Rede de 11 Percursos Pedestres foi hoje inaugurada)


Painel informativo do percurso

Ora cá está uma de muitas inaugurações de Percursos Pedestres a que eu tenho aderido e este trilho, que está dividido em três percursos (3km, 6km e 10km) garanto-vos que não é de perder e aconselho-vos a percorrê-lo.

Claro que eu, amante do Pedestrianismo, caminhei a distância total e digo-vos que adorei, respondendo positivamente ao convite do Sr. Presidente da Câmara de Sever do Vouga, que incentiva a visitar o Concelho e usufruir da sua gastronomia. Úi! aquela vitela assada com batatinhas e arroz do forno! Quando me lembro….
Eu já cá tinha estado há vários anos atrás, tendo improvisado com quem me acompanhava, uma pequena e bela caminhada, num quente dia de Agosto.
Lembro-me de perguntar a tanta gente como lá chegar, até descobrir este belíssimo recanto de Portugal.

Hoje, a sinalização do percurso é excelente, ou não fora um trabalho da autoria de Joaquim Gonçalves (naturveredas) que já nos habituou a estes projectos muito bem elaborados.

O ponto de partida localiza-se na Freguesia de Silva escura, concretamente no Parque de Lazer da Cascata da Cabreia – ex libris da região – e acompanha para jusante o Rio Mau que, deste local para montante tem o nome de “Rio Bom”, que adquiriu na Freguesia com o mesmo nome, onde inicialmente atravessa.

Rio "Bom"

Rio "Mau"

Das várias explicações para esta alteração, a mais provável é a péssima qualidade que a sua água passava a ter a partir da zona do Couto Mineiro da Malhada e do Braçal, onde até 1958 se explorou a “galena” ou minério de chumbo. Na extracção e lavagens do mesmo desaguava no rio tal veneno que o contaminava tragicamente tornando-o mau e impróprio para qualquer consumo ou uso.

Entrada da galeria da Mina da Malhada

Depois de visitarmos as extensas ruínas do Complexo Mineiro, prosseguimos pela montanha passando alguns pequenos núcleos populacionais, até encontrarmos novamente o rio “Bom” a montante da cascata, que devemos percorrer até chegarmos à majestosa queda onde o rio se precipita de uma altura de 25 metros, num quadro divino, mágico e romântico, que a Natureza nos oferece.

A espectacular cascata da Cabreia


Lembram-se da telenovela “Senhora das águas” e da publicidade do castor a uma marca de pasta de dentes? Pois é este o mesmo local, naturalmente inalterado e melhorado nos acessos a este lugar bucólico guardado nos confins desta bela região.
Aqui me detive por largos momentos, meditando naqueles versos de Fernando Pessoa:

É como se a tristeza
Fosse árvore e uma a uma
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.

O rio nada me diz
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Ou se desejo sê-lo.

Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida
Porque fiz eu dos sonhos
A minha única Vida?!

Depois, associei-me ao salutar convívio dos “comes e bebes” onde provei aquele bolo que simbolizava a inauguração deste belo trilho, oferecido pela Autarquia.

Foi um dia maravilhoso que passei e dou os parabéns à Organização por tornar este pequeno paraíso encantador mais conhecido de todos os Portugueses!

A “Caramulinha” agradece!