domingo, 25 de maio de 2008

21-03-2008 PR4 Terras de Bouro (1)

Trilho dos Moinhos e Regadios – 10 km / circular
Rede de Percursos Pedestres

“Na senda de Miguel Torga”

Olá, Amiguinhos

Como vão esses passeios pela Natureza?
Espero que estejam a aproveitar bem os tempos livres para conhecer um pouquinho melhor este nosso Portugal encantado.
A “Caramulinha” depois de, em anos anteriores, ter calcorreado aquelas rotas ditas “emblemáticas” da majestosa Serra do Gerês, resolveu com o seu grupinho vir percorrer o “Trilho dos Moinhos e Regadios” na Freguesia de Chamoim, pelas Aldeias de Lagoa, Sequeiros e Pergoim, banhadas pelo místico Rio Homem e seu puro afluente Rio Rodas.

Trata-se de um trilho circular com início e fim na Aldeia de Lagoa, levando-nos a conhecer as pacatas Aldeias e os caminhos rurais, as levadas, as chãs e os regadios e alguns moinhos de água desactivados.
As margens envolventes ostentam uma paisagem deslumbrante, particularmente junto aos cursos de água, com um verde exuberante dos seus núcleos florestais e campos onde apascenta algum gado bovino autóctone.

À saída de Sequeiros, o percurso seguia até ao Rio Homem, que se atravessava nas poldras junto à Praia Fluvial, e por uma ponte de arame flectia-se para o Rio Rodas.
Acontece que num Inverno bastante chuvoso, o caudal do Homem foi tanto que derrubou essa ponte artesanal e o percurso foi desviado num pequeno troço alternativo, passando uma chã com cerca de arame que devemos atravessar pela berma até uma pequena ponte de betão para a margem direita do Rodas e continuar a caminhada em direcção a Pergoim. Agradeço ao Sr. José, habitante da região, esta preciosa ajuda ao informar-nos desta alteração que desconhecíamos.

Depois de alguns kms vislumbrando paisagens bucólicas de verde primaveril, ao longo das margens do Rio Rodas ou Ribeiro da Roda, por um caminho encimado de uma latada, na Aldeia de Pergoim, chega-se à fábrica das Aguas do Fastio.
Deste lugar toma-se um ascendente íngreme, antigo ramal de acesso à Via Militar Romana XVIII, do Itinerário de Antonino, a Geira Romana, e até lá chegarmos fomos fazendo várias pausas, bebendo muita água, enchendo as garrafas nas encostas da montanha onde ela abundantemente escorre. Que água tão pura e refrescante!
Aqui chegados, deparamo-nos com a calçada horizontalmente bem delineada e hoje ainda bem preservada, ladeada de muros graníticos cobertos de líquenes e musgos aveludados, onde a frondosa vegetação de carvalhos seculares é de uma beleza natural incrível.
Como é emocionante percorrer calmamente este pequeno troço entre as milhas XXI e XXII desta via milenar – quase dois mil anos de história!

Nos paineis colocados junto dos miliarios que assinalam as milhas, podem ler-se estas descrições:

«Na milha XXI, no lugar de Travasso, freguesia de Vilar, a uma altitude de 460 metros, conservam-se dois marcos, um com inscrição, outro com o texto muito apagado, de difícil leitura. O primeiro, de acordo com vários autores é de Heliogábalo (218-222), datável do ano 219. Quando Martins Capella o observou estava tombado no leito de uma ribeira, salientando que alguns das letras já não se distinguiam. Segundo Amaro da Silva, o marco anepígrafe a que se refere aquele autor não é o mesmo que actualmente se observa no local. Assim a esta milha corresponderiam três marcos.Próximo do ponto onde se situam os miliários nota-se uma possível pedreira antiga. Aos 40 metros cruza um ribeiro. Neste ponto notam-se vestígios de rodados.Deste ponto em diante pode observar-se uma série de calçadas: entre 1125 e 1240 metros; aos 1378 metros; aos 1497 metros; entre os 1581 e 1594 metros, cruzando uma ribeira; entre os 1619 e 1628 metros.Amaro Carvalho da Silva, no lugar de Pontido, no termo do lugar de Travassos, recolheu fragmentos de tegulae. Assim sugere que nesse ponto poderia ficar a Mansio Salatiana.Entre os conjuntos de marcos das milhas XXI e XXII contam-se 1700 metros. »

«Em Ervosa, lugar de Santa Comba, na freguesia de Chamoim, a uma altitude de 470 metros, na milha XXII registam-se dois marcos, um com inscrição e, outro, quase anepígrafe. Segundo vários autores um seria do imperador Adriano (117-138), datável do ano 135. Quanto ao segundo a inscrição está muito apagada, sendo a sua leitura bastante difícil.O trajecto entre esta milha e a seguinte é marcado por várias oscilações de cotas e, consequentemente, por um maior numero de calçadas. De um modo geral associados a estas calçadas ocorrem cursos de água. Como é de esperar nos tramos lajeados são habituais as marcas de rodados dos carros de bois. Junto aos cursos de água, devido à falta de manutenção a via encontra-se mais degradada.Entre os marcos desta milha e os da seguinte contam-se 1660 metros.»

Alguns garranos avistaram-nos e galoparam para um prado um pouco mais adiante.
Depois destes saborosos momentos deixamos a Geira e inflectimos à esquerda para subirmos à cota altimétrica máxima deste percurso, 600 metros, no sítio do alto do Espigão, nas imediações de Santa Comba.

Primeiro chegamos à estrada municipal e descemos pelo caminho dos Moinhos, para passarmos umas chãs e chegarmos ao miradouro do Espigão.
Daqui se avista uma paisagem intocável, onde apascenta gado bovino ao longo das encostas da Serra, procurando erva bravia entre as carquejas, tojos, urzes e fetos.
Todo o Parque Nacional da Peneda / Gerês ostenta uma Flora e Fauna riquíssimas, das mais importantes e preservadas em Portugal.

Pela luz da aurora e por do sol, vagueiam raposas e algumas alcateias de misterioso predador, o lobo ibérico, no encalço dos rebanhos das cabras.
No céu límpido de azul, planam ainda algumas águias-reais, procurando esquilos, pequenos corços e coelhos no solo.
Nas límpidas águas dos seus rios, proliferam inúmeras espécies piscícolas e as suas margens albergam lontras, batráquios e anfíbios, num habitat recíproco de núcleos florestais onde nidificam inúmeras espécies de aves.
É para mim a “Rainha” das Serras!
Prosseguindo a ponta final do Percurso, percorre-se um descendente que atravessa novamente a Geira e seguindo em frente dirigimo-nos a Sequeiros onde tomamos o caminho debaixo da ramada ou latada, que vai levar a Lagoa, onda termina esta agradável Caminhada.
Despedimo-nos de Lagoa, onde não vimos qualquer produto artesanal à venda, e paramos um pouquinho mais adiante no Parque de Merendas da Senhora do Livramento, núcleo de Capelas mais conhecido por Senhor dos Aflitos.

Por cima da padieira da porta da Capela, lê-se esta mensagem Cristã dirigida aos Caminhantes:

Vós que andais em todo momento
entre perigos no Mundo vário,
erguei o vosso pensamento
à Senhora do Livramento
que se venera neste Santuário.

Aqui teve lugar o nosso piquenique onde não faltaram as fêveras, rissóis, pão regional e pinga verde fresquinha.
Neste pequeno mas belo lugar aprazível e reconfortante para lanchar e descansar, conversamos sobre esta Rede de Percursos Pedestres elaborados e sinalizados pela Câmara de Terras de Bouro, denominados “Na senda de Miguel Torga”.
Para falarmos deste Homem notável, confesso que é tão emocionante quanto dificultativo, pois é imenso o que de positivo há para descrever.

Continua…

1 comentário:

Mara disse...

Qunta beleza! Parabéns pelo blog! Adorei!